Governo do Distrito Federal
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9/01/17 às 17h10 - Atualizado em 29/10/18 às 15h55

Menos água, mais consumo: a conta que não fecha

Especial sobre as águas do cerrado (09/01/2017)

 

Flávia Maia, do Correio Braziliense

 

O cerrado sempre foi generoso com quem aposta nele. Foi no cenário de clima quente e solo seco com aspecto de savana que o Brasil expandiu a sua fronteira agrícola e escreveu a sua história de interiorização. Abrigou a construção monumental da capital Brasília. Recebeu gente de todo o país – atualmente, o bioma é a casa de mais de 30 milhões de brasileiros.

 

Entretanto, cinquenta anos depois dessa ocupação maciça, ele começa a apresentar sinais de cansaço. A devastação de quase metade da vegetação nativa, a ocupação desordenada da região e o uso intenso dos recursos naturais estão influenciando em seu bem mais precioso: a água. Leia o especial produzido pelo Correio sobre a mais drástica crise hídrica do cerrado brasileiro. Confira os capítulos abaixo.

 

Os oásis secaram

Conhecidas como berço das águas, as bacias hidrográficas do cerrado estão ameaçadas pelo crescimento do uso. Em alguns rios, já chega ao nível crítico de 40% de consumo para atividades humanas. A seca no cerrado pode prejudicar toda a distribuição de água nacional, porque o bioma distribui água para as principais reservas brasileiras.

 

Crise hídrica ameaça os oásis no cerrado

Bacias hidrográficas do cerrado sofrem com o crescimento populacional e a falta de chuvas, problema que poderão afetar todo o país

 

Pai e filho andam por um caminho aberto pela seca. Matusalém de Brito Santiago, 38 anos, e o pequeno Diogo, 5, procuram pelo cavalo de nome Ruivo que fugiu de madrugada da chácara da família, próxima à Barragem do Descoberto, no Distrito Federal. “É um animal bonito, tem o corpo marrom e o focinho branco”, descreve Diogo.

 

O ambiente seco por onde caminham tem troncos caídos e retorcidos e o calor embaraça a visão, o que dificulta a busca. Mas esse cenário é novo nos arredores do Rio Descoberto, ainda mais em pleno mês de dezembro, quando as chuvas costumam ganhar os céus do cerrado. “Vivo com a minha família nesta região há mais de 30 anos. Sempre o Descoberto retrocedeu na seca, mas, desta vez, eu olho e não acredito que (o nível) baixou tanto”, comenta.

 

No campo arenoso típico de fundo de rio, Diogo pode correr, desbravar e tentar encontrar o cavalo perdido. Mas a cena preocupa Matusalém. “A gente olha para as crianças e fica preocupado com essa crise hídrica que estamos vivendo”, desabafa o projetista. A baixa das águas do Rio Descoberto, responsável por quase 65% do abastecimento da capital do país, tornou-se o símbolo da crise hídrica vivida no cerrado brasileiro.

 

Pela primeira vez na história de Brasília, a população convive, desde o fim de outubro de 2016, com o risco iminente de racionamento e de duras medidas para economia de água, como o pagamento de taxa de contingência e diminuição de vazão em determinadas regiões administrativas para não atrapalhar o abastecimento urbano. Para retratar a situação vivida pelo bioma, o Correio traz uma série de reportagens sobre o tema.

 

O cerrado sempre foi generoso com quem aposta nele. Foi no cenário de clima quente e solo seco com aspecto de savana que o Brasil expandiu a fronteira agrícola e escreveu a história de interiorização. Recebeu gente de todo o país — atualmente, a região em que o bioma predomina é a casa de mais de 30 milhões de brasileiros. Entretanto, 50 anos depois dessa ocupação maciça, ele começa a apresentar sinais de cansaço. A devastação de quase metade da vegetação nativa, a ocupação desordenada da região e o uso intenso dos recursos naturais ameaçam um de seus bens mais preciosos: a água.

 

Conhecido como berço das águas, por abrigar nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul (São Francisco, Tocantins e Prata), a força aquífera do cerrado clama por socorro. “O cerrado funciona como um guarda-chuva para as águas brasileiras. A água bate e é distribuída para o Brasil inteiro. Por isso, a escassez no local tem repercussão em todo território nacional e a preservação ganha mais importância”, analisa Jorge Werneck, pesquisador da Embrapa Cerrados e presidente do Comitê da Bacia do Paranoá. O cerrado contribui, em diferentes proporções, para a formação de pelo menos oito bacias hidrográficas brasileiras.

 

Pressão

Antes restritos aos roteiros de filmes de ficção futuristas, os potenciais conflitos pelo uso da água começam a se transformar em uma triste realidade no cerrado brasileiro. O bioma sofre duas pressões principais: o abastecimento humano e a irrigação intensiva. Mapeamentos feitos pela Agência Nacional de Águas (ANA) mostram que as bacias de regiões próximas aos centros urbanos estão sobrecarregadas, é o caso do Rio Descoberto, entre Goiás e o Distrito Federal, e o Rio Meia Ponte, localizado na região metropolitana de Goiânia (GO). As reservas com intenso uso de irrigação também estão à beira de colapso hídrico, como a bacia do São Marcos, entre as cidades de Cristalina (GO) e Paracatu (MG), e a do Rio Preto (DF).

 

As bacias do cerrado estão operando no limite. O uso cresce e a vazão dos rios diminui. Enquanto as retiradas de água em todo o Brasil aumentaram, em média, 28,8%, no bioma o crescimento foi de quase o dobro. Na Tocantins-Araguaia, por exemplo, foi de 73%. Na São Francisco, 54%. O resultado do uso intenso, combinado à diminuição de chuvas na região, começa a ser sentido pela população. A terra rachada pelo calor do sol, os passos a mais para se chegar até a água e o caminho arenoso passaram a fazer parte do cenário da região. O reservatório de Serra da Mesa, localizado nos municípios de Uruaçu (GO) e Niquelândia (GO), secou. Em setembro de 2015, contava com 24,6% da capacidade. Um ano depois, chegou a 10,37%, para desespero dos setores turístico, agrícola e de pesca locais.

 

O comprometimento de uso da água de algumas bacias localizadas no cerrado chega a mais de 40%, índice considerado crítico por especialistas. Os pontos marrons e vermelhos de alerta apontados pelo monitoramento feito pela ANA multiplicam nos estados da região Centro-Norte, como Goiás, Mato Grosso, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Tocantins e oeste da Bahia — localidades reconhecidas como oásis da savana graças à possibilidade de fazer três safras ao ano via irrigação. “Alguns trechos do bioma estão em limite crítico. A irrigação aumentou muito, principalmente por pivô central, o que permitiu o forte crescimento econômico na região e levou também à maior concentração de população nas cidades e ao aumento da procura pela água”, explica Marcela Ayub Brasil, especialista em recursos hídricos da agência.

 

O consumo cresce mais do que a disponibilidade hídrica. Se nada for feito, o cenário que se desenha para os próximos anos é assustador, com consequências como a diminuição da vazão dos rios e a escassez hídrica para a população, para a biodiversidade e para as atividades econômicas.

 

“Uma bacia hidrográfica tem toda uma dinâmica. Não são só os fatores climáticos que influenciam, mas a quantidade de água usada e o quanto ela consegue armazenar no solo. O que observamos no cerrado é que a conta do que entra e o que sai do sistema não tem fechado”. Júlio César Sampaio, coordenador do Programa Cerrado e Pantanal do WWF-Brasil.

 

A pressão sobre as bacias do cerrado

Crescimento populacional sem o devido saneamento básico e uso excessivo de irrigação sobrecarregam algumas bacias. Especialistas recomendam gerenciamento do recurso para evitar a crise hídrica

 

A água se tornou recurso fundamental para o desenvolvimento da região Centro-Norte do Brasil. O movimento de interiorização das últimas décadas ocorreu graças à possibilidade de contornar os severos meses de estiagem típicos do cerrado brasileiro. O uso da irrigação permitiu três safras ao ano e a região passou a viver um boom agrícola — o setor é um dos principais motores econômicos nacionais, com safras recordes.

 

Ao mesmo tempo em que a agricultura se tornou a força socioeconômica, o crescimento de centros urbanos, como Brasília, impulsionou o adensamento. As duas atividades levaram à maior necessidade do uso dos recursos hídricos e as bacias do cerrado estão cada vez mais pressionadas, o que as coloca em situação crítica na relação entre consumo e quantidade disponível, segundo análise da Agência Nacional de Águas (ANA).

 

Hoje, 15% de toda a irrigação nacional ocorre nas quatro unidades da Federação do Centro-Oeste. O abastecimento público chega a corresponder a mais de metade da demanda local, como é o caso do Distrito Federal. Quando a bacia é usada para os dois casos, como ocorre no Pipiripau, em Planaltina (DF), a situação torna-se ainda mais grave.

 

Sem o devido planejamento, os reservatórios das cidades tornaram-se insuficientes para atender a todos, assim como o tratamento de esgoto não acompanha a ocupação, o que aumenta a poluição nas águas. Sujo, o líquido torna-se impróprio para consumo, como ocorre com o Rio Melchior, no Distrito Federal, considerado morto por órgãos ambientais por causa do excesso de contaminação.

 

Nas cidades, a falta de tratamento de esgoto, a ocupação irregular, a impermeabilização do solo — que não permite a recomposição dos lençóis freáticos — e o depósito de sujeira direto nas cabeceiras são os principais fatores para o agravamento da crise hídrica. O pouco investimento e a dificuldade das empresas de saneamento em acompanhar a velocidade de aumento da população para ofertar o serviço também contribui.

 

As bacias do Descoberto (DF), do Meia-Ponte (GO) e do Palmital (GO) são algumas das que sofrem com a pressão urbana. “Os rios do cerrado, em especial os localizados no Planalto Central, são pouco caudalosos, assim, a oferta é baixa. Se a população cresce, o rio é mais pressionado. Além disso, eles são mais suscetíveis à poluição”, explica Marcela Ayub Brasil, especialista em recursos hídricos da ANA.

 

O tratamento de água no Centro-Oeste tem índices superiores a 85%, segundo dados do Ministério das Cidades, e segue rumo à universalização. Entretanto, quando se fala em esgoto, apenas o DF alcança a marca de 84,5% de atendimento. As demais unidades da Federação, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, não conseguem oferecer o serviço de coleta e tratamento a nem metade dos seus municípios.

 

O presidente da Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais (Aesbe), Roberto Cavalcanti Tavares, afirma que o acesso e a qualidade do saneamento refletem diretamente na quantidade de água para o abastecimento. Ele lembra que as cidades têm crescido de forma desordenada, o que dificulta a implantação universal dos serviços. “Não podemos ter saltos de investimento, ele tem que ser constante.”

 

A família da dona de casa Mônica Monik Alves de Souza, 17 anos, e do filho Davi Luiz, 1, não sabe o que é ter saneamento básico. Eles vivem na Chácara Santa Luzia, na Estrutural, no DF. Ela conta que, de dia, não há água suficiente para as 10 pessoas que vivem na casa. A pressão da água que vem pelos canos é baixa. Por isso, de madrugada, quando a vazão aumenta, eles acumulam o líquido em tambores e no tanque para o consumo de dia. O esgoto vai para uma fossa instalada na porta da casa. “A água vem muito fraquinha pelo cano. Aprendemos a nos virar porque, se formos esperar que alguém faça algo por nós, nada melhora”, comenta.

 

Agricultura

No caso da produção agrícola, a expansão da irrigação aumentou em determinadas bacias, por isso elas estão sobrecarregadas. É o caso da Bacia do São Marcos, entre Cristalina (GO) e Paracatu (MG). Na região, há conflito pela água. De um lado, uma das principais potências agrícolas do país e, de outro, a necessidade de gerar energia elétrica na Usina Batalha, de Furnas. A bacia tem a maior concentração de pivôs centrais para irrigação do país, o que levou a ANA proibir novas outorgas, alegando que todos os 33,5 mil hectares de irrigação previstos em marco regulatório já estão sendo utilizados. As bacias do Rio Preto (DF), do Pipiripau (DF), de Urucuia (MG) e do Jaiba (MG e BA) também estão entre as preocupações de especialistas e entidades.

 

Se o abastecimento público e a irrigação são os principais vetores de consumo de água, são nesses espaços que a falta do recurso também é uma realidade. Produtores da Bacia do Rio Preto, no DF, por exemplo, estão aprendendo a fazer o uso racional para que todos sejam contemplados. A Agência Reguladora de Águas do DF (Adasa) instituiu um rodízio entre os produtores. Enquanto um produtor liga o equipamento, outro não pode fazê-lo. Eles tiveram de abrir mão de uma das três possíveis safras de 2016 em razão da crise hídrica. É a primeira vez que uma medida tão drástica precisa ser tomada na região.

 

“Não devemos demonizar a agricultura, o país necessita dessa atividade econômica e há espaço para ela crescer. O que precisa é distribuir melhor essa produção nas bacias. Além disso, o produtor rural tem de enxergar que as boas práticas de uso da água são investimento e não custo”, alerta Jorge Werneck, pesquisador da Embrapa Cerrados.

 

Walmor Tiggemann, 54 anos, planta grãos há 30 anos no Rio Preto e em São Gabriel da Aliança (GO), em uma área equivalente a 1,4 mil hectares. O produtor comenta que a falta de água em 2016 reduziu a colheita pela metade. Se, em 2015, foram 120 sacas, em 2016 o número diminuiu para 60. Isso porque o Ribeirão Extrema, que abastece a localidade, chegou à capacidade mínima. “Desde 1986 eu nunca vi uma seca como esta. Já convivemos com veranicos severos, mas nunca impactaram tanto os lençóis freáticos. Até a nascente que temos perto de casa secou”, analisa. Por causa da seca, a saca de feijão chegou a custar R$ 450 em 2016 — três vezes mais do que o usual. O produtor tem três pivôs centrais nas fazendas localizadas no DF e tem autorização para instalar mais um, mas preferiu não usá-lo por enquanto em razão da falta de água.

 

Uso racional

“As bacias que têm de fazer abastecimento humano e irrigação são as mais prejudicadas, por causa das duas pressões que sofrem. No caso do DF, isso fica evidente, por exemplo, na Bacia do Descoberto. Por lá, a irrigação não foi interrompida e os produtores reclamaram que a água diminuiu. O que a Emater tem feito é ajudar o produtor a evitar desperdícios, ao usar sistemas de irrigação mais localizados, como o de gotejamento. O tensiômetro, aparelho que mede a umidade do solo – quanto e quando molhar -, também é importante instrumento, porque se usa o que realmente a planta precisa. O que percebemos é que o produtor está cada dia mais consciente e preocupado com os recursos hídricos, até porque é o primeiro que sofre.”  Marcos de Lara Maia, gerente de agroecologia e Meio Ambiente da Empresa Técnica de Assistência e Extensão Rural do DF (Emater).

 

Conflitos por água já são realidade no DF

Os baixos níveis dos principais reservatórios e a dificuldade de reposição do volume da água levam órgãos ambientais a forçarem economia com pagamento de taxa extra, redução de pressão e rodízio para irrigação. Falta investimentos em novos mananciais.

 

Níveis críticos ameaçam o abastecimento e conflitos pela água são realidade no DF

População continuará a sentir os efeitos da escassez, já que as medidas de racionamento não têm data para acabar

 

O Distrito Federal se tornou o expoente da crise hídrica vivida pelo cerrado brasileiro. Os baixos níveis dos principais reservatórios de abastecimento público preocupam autoridades e a população. O volume atual registrado no Descoberto está em 23,21% — no mesmo período do ano passado, a marcação atingia quase o dobro (44,56%). No de Santa Maria, em 2015, havia 35% a mais de água do que neste dezembro de 2016.

 

A situação crítica vai levar o brasiliense a entrar 2017 com medidas de contenção de consumo severas. Não há prazo para o fim da cobrança da taxa extra nas contas de quem gasta mais de 10 mil litros por mês, assim como 15 regiões administrativas continuarão recebendo menos água nas casas das 7h às 19h por causa da redução de pressão nos canos de distribuição.

 

Desde 2010, a Agência Nacional de Águas (ANA) alerta para a necessidade urgente de um novo manancial para suprir a demanda crescente na capital do país. Enquanto as obras não saem do papel, medidas de emergência tiveram de ser tomadas. Além das medidas anunciadas para os consumidores nas residências e no comércio da capital, novas outorgas de uso estão suspensas e canais agrícolas foram fechados ou tiveram vazão reduzida. O resultado é o aumento das tensões para obter o líquido. São embates entre a cidade e o campo; entre a poluição e o lazer; e entre o abastecimento e a preservação ambiental.

 

Segundo levantamento da ANA, boa parte do território do DF está em nível crítico de oferta e demanda de água. A área do Descoberto e as bacias agrícolas de Planaltina, como Pipiripau, Rio Jardim, Rio Preto e Tabatinga, estão entre os locais mais sensíveis. O aumento do consumo, a destruição das nascentes pela impermeabilização do solo, o desmatamento e a poluição, o rebaixamento dos lençóis freáticos e o regime escasso de chuvas contribuem para o cenário pouco esperançoso em 2017.

 

“Com a crise hídrica de 2016, nós, sociedade e governo, avançamos muito na compreensão do ciclo da água. Mas a recuperação dos reservatórios está mais lenta, por isso teremos um 2017 que também vai demandar cuidados e economia”, acredita Paulo Salles, presidente da Agência Reguladora de Águas do DF (Adasa).

 

De acordo com Maurício Luduvice, presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb), o consumo vinha em uma curva decrescente desde que as medidas de contenção foram implantadas — a média diária de retirada chegou a cair 15%. No entanto, em dezembro, o gasto voltou a subir, provavelmente em razão do calor e das festas de fim de ano. Na análise do presidente, em 2017 se desenha uma situação preocupante. “Vamos entrar o ano com economia de água. A crise hídrica ainda não está afastada.”

 

Crescimento

Com quase 25% da população vivendo em área irregular e um crescimento populacional de mais 70 mil pessoas por ano, a crise hídrica era uma tragédia anunciada. Somam-se a essa realidade os poucos investimentos feitos ao longo dos anos para diversificar a matriz de captação de água. O principal reservatório da capital federal, a Barragem do Descoberto, tem 42 anos. À época, Brasília contava com pouco mais de 500 mil habitantes. Atualmente, são quase 3 milhões. A última obra de médio porte para captação do recurso foi inaugurada em 2000, há 16 anos, no Pipiripau, em Planaltina.

 

Nas últimas décadas, pequenas construções de barragens e de poços foram feitas para socorrer novos conjuntos habitacionais, como o Paranoá Parque, e reforçar o abastecimento em locais com explosão demográfica, como os condomínios de Sobradinho I e II, Fercal e Bairro do Taquari. Os projetos de maior fôlego, propostos pela Caesb, como a captação no Lago Paranoá, sequer têm o recurso disponível, e Corumbá IV caminha a passos lentos desde o anúncio, em 2003. As obras desse sistema ficaram paradas por dois anos e a nova previsão de entrega é 2018.

 

Esses dois projetos e a captação no córrego Bananal (prevista para novembro de 2017) podem aumentar em 57,8% a produção de água potável. Hoje, a capacidade máxima diária é de 9,5 mil litros por segundo. Os três sistemas acrescentarão mais 5,5 mil litros à vazão por dia. Esse incremento pode garantir a segurança hídrica até 2050, segundo a Caesb. “Desde 2010 havia apontamentos da necessidade da construção de novo manancial até 2015, isso seria resolvido com o Paranoá ou Corumbá, mas nenhuma das opções foi colocada em prática ainda”, observa Marcela Ayub Brasil, especialista em recursos hídricos da ANA.

 

O produtor rural Armindo de Souza Santos, 62 anos, mora em uma chácara de três hectares às margens do Descoberto há mais de 20 anos e precisou investir em culturas que exigem menos irrigação, como o quiabo. Ele comenta que a seca na região é visível. “Quando cheguei aqui, as águas minavam no meio da estrada. Dava raiva passar com o carro e ele atolar. Hoje, a praia que forma no Descoberto está cada dia mais longe e a gente torce para chover”, conta o agricultor.

 

Para saber mais

A Adasa foi criada em 2004. Antes dessa data, as atribuições relativas à água ficavam a cargo da Caesb e da Secretaria do Meio Ambiente. Entretanto, a agência e a pasta costumam divergir quando o tema é água, o que atrapalha a gestão e o andamento de projetos dessa área no DF. É o caso do barramento para irrigação. Outro exemplo é a limpeza de assoreamento do Lago Paranoá causado pelo Noroeste. A Adasa autorizou a retirada da parte assoreada pela Terracap, mas a secretaria entendeu que a ação poderia poluir mais o lago.

 

O conflito entre os órgãos ganhou força com a aprovação da lei da deputada distrital Luzia de Paula que retira funções da Adasa e as transfere à Secretaria do Meio Ambiente, entre elas o controle das águas subterrâneas, o que compreende outorgas, cadastramento de poços e monitoramento da quantidade e da qualidade. A assessoria da deputada informou, no entanto, que ela pretende apresentar outro projeto para a área que revogue a lei aprovada na Câmara Legislativa do DF.

 

Irregularidades agravam a situação

A captação irregular da água, os resíduos clandestinos e a poluição viraram um grave problema no DF. Rios como o Melchior, em Samambaia, já estão na classificação vermelha do Conselho Nacional do Meio Ambiente — é como se o rio estivesse morto, uma vez que a recuperação dele tem custo muito alto. A preocupação de especialistas é com o fato de esse rio desaguar no lago de Corumbá IV, futuro local de captação para consumo humano. No entanto, Paulo Salles, presidente da Adasa, é enfático ao afirmar que a poluição do Melchior não vai contaminar as águas de Corumbá. “O rio tem uma capacidade de depuração. À medida que ele chega próximo à Corumbá, a sujeira vai sendo decomposta ou diluída, porque outras fontes vão alimentando o curso d’água. Não há com o que se preocupar”, garante Salles.

 

O que de fato incomoda a agência são as irregularidades no sistema: os poços e as fossas clandestinas, assim como o despejo de resíduos poluentes em córregos, rios e até no Lago Paranoá. “A perfuração ilegal de poços nos preocupa muito, porque as pessoas abrem poços em três, quatro horas e as empresas fazem no fim de semana, quando a fiscalização é menor”, diz Paulo Salles. A Caesb estima que haja 28 mil ligações clandestinas em todo o DF, causando um prejuízo de mais de R$ 17 milhões anuais à estatal. “Muito da nossa perda, hoje em 37%, é por roubo de água. Isso prejudica todo o sistema. Nossa expectativa é reduzir essa perda diária para apenas 20%”, comenta Maurício Luduvice, presidente da companhia.

 

Soluções precisam ser imediatas

A crise hídrica avança em velocidade maior do que a capacidade das autoridades e da sociedade civil para manter o volume e a qualidade das águas. Zoneamento Ecológico Econômico, saneamento básico, economia do consumidor e programas como Produtor de Águas podem ser os caminhos.

 

É preciso agir rápido para garantir o abastecimento

Especialistas apontam os caminhos para garantir a quantidade e qualidade da água. Muito pouco, porém, tem sido feito. É preciso agir para não faltar

 

O ciclo das águas do cerrado passa por uma transformação preocupante, o que potencializa a crise hídrica. O excesso de calor e a mudança no regime de chuvas — cada vez mais esparsas — são realidade. Estudos apontam que o desmatamento de quase metade da área do bioma vem causando impactos. Os 48% perdidos de vegetação nativa contribuíram para o decréscimo de 5% na quantidade anual de precipitação, o que diminui a vazão dos rios e, consequentemente, a oferta de água. “Nesta conta, estão de fora os efeitos climáticos globais. Se acrescidos, o volume de chuva pode diminuir até 30%”, alerta Henrique Chaves, professor de manejo de bacias hidrográficas da Universidade de Brasília (UnB).

 

É preciso frear não só o desmatamento como o crescimento desproporcional entre a quantidade de água consumida e a capacidade de recuperação dos rios; o assoreamento de importantes bacias, como a do Rio Araguaia, e a impermeabilização do solo — cerca de 90% da vazão do cerrado vem de água de lençol freático. As iniciativas de preservação e o gerenciamento de recursos necessitam ser implantados de forma ágil e mais compatível com a velocidade do grave quadro de crise hídrica que se desenha, sobretudo no Distrito Federal e no estado de Goiás.

 

Entre as discussões estão a intensificação da participação da sociedade civil, a universalização do saneamento básico, a implantação da cobrança de água pelos comitês de bacias, o cumprimento dos prazos dos programas de Zoneamento Ecológico e Econômico (ZEE) e a maior capilaridade dos programas de preservação.

 

Entretanto, projetos e iniciativas apresentados têm sido mais morosos do que o alastramento da crise hídrica, parte pela burocracia, parte pelos conflitos de interesses. Na opinião de Júlio César Sampaio, coordenador do Programa Cerrado e Pantanal do WWF-Brasil, falta um pensamento mais conjunto: “No Brasil, as discussões são muito dicotômicas. Ou você é conservacionista ou é desenvolvimentista. É ruralista ou ambientalista. É preciso um ponto de equilíbrio, uma visão integrada com todos os atores do sistema”, defende Júlio, WWF-Brasil.

 

Uma das principais apostas para o melhor manejo dos recursos hídricos é o ZEE. O documento trará um mapeamento dos locais em que as atividades econômicas causam menor impacto ambiental. Porém, a elaboração do documento e a posterior execução ainda são um desafio para os estados brasileiros. A diretriz nacional obriga todos a apresentarem o projeto até, no máximo, maio de 2017. Entretanto, apenas 11 concluíram os estudos, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.

 

No Centro-Oeste, apenas o DF não conseguiu entregar nenhuma parte da sua proposta. Neste momento, o ZEE-DF está em consulta pública e precisa passar pela Câmara Legislativa. Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul terminaram os seus planos e entregaram ao governo federal.

 

Outra solução urgente é a universalização do atendimento por água tratada e esgoto à população.

 

A Organização Mundial de Saúde estima que, para cada US$ 1 investido em saneamento, são economizados US$ 4,3 em serviços de saúde. Com a crise financeira da administração pública brasileira, os investimentos vêm caindo no país desde 2014. Sem financiamento externo, as empresas têm dificuldade para melhorar a infraestrutura apenas com o uso da receita gerada pelas contas pagas pelos consumidores. “A população dá mais valor em pagar uma conta de celular do que uma conta de água. O dinheiro dá apenas para manutenção”, reclama Roberto Cavalcanti Tavares, presidente da Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais (Aesbe).

 

Insumo econômico

Atribuir valor econômico à água também é uma discussão que precisa ser enfrentada no Brasil. O tema está previsto desde a legislação de águas de 1997, mas poucas bacias cobram, como é o caso do Rio São Francisco; do Paraíba do Sul, entre São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) e Minas Gerais (MG); e da Bacia Piracicaba, Capivari e Jundiaí, entre SP e MG.

 

Atualmente a maioria dos grandes usuários, como companhias de saneamento, irrigantes e indústrias não pagam pelo recurso se retirarem direto do curso d’água. A ideia é a cobrança dessa água não tratada, prática comum em países europeus, como França e Alemanha. “A água é um recurso finito e um insumo econômico. Ao pagar pelo uso, os comitês investem na proteção da própria bacia, o que é muito interessante”, defende Paulo Salles, presidente da Agência Reguladora de Águas do DF.

 

O engajamento da sociedade civil também é essencial. O consumo per capita dos moradores do Distrito Federal e do Mato Grosso está entre os 10 mais altos do país — são mais de 165 litros/dia, segundo dados do Ministério das Cidades, e podem ser diminuídos. Após as intensas campanhas dos órgãos ambientais para uso racional do recurso e a cobrança pelo excesso, a população do DF, por exemplo, chegou reduzir o consumo em até 15% durante o mês de novembro e o começo de dezembro de 2016. “Quando começou a crise, priorizei a lavagem dos cachorrinhos. Para economizar, passei a lavar o chão do pet shop duas vezes por semana. Antes, eram todos os dias”, Gizeulda Sousa, proprietária de pet shop.

 

São casos como o da proprietária do pet shop Estet Dog, Gizeulda Sousa, 48 anos. Conhecida como Linda pelos vizinhos da Ceilândia — região que tem recebido menos água nas torneiras. Ela reduziu o consumo do estabelecimento pela metade, mesmo com o aumento do número de clientes. “Quando começou a crise, priorizei a lavagem dos cachorrinhos. É uma média de 15 por dia. Para economizar, eu passei a lavar o chão do pet shop duas vezes por semana. Antes, eram todos os dias”, comenta.

 

Produtor de Águas

O cuidado com as nascentes e a preservação da mata ciliar são dois passos importantes para a manutenção dos recursos hídricos. Em regiões do Planalto Central, como o Distrito Federal e Goiás, a concentração de nascentes exige atenção. No DF, não há um levantamento oficial de quantas elas são — um levantamento nas Unidades de Conservação está em andamento e o Cadastro Ambiental Rural (CAR) também vem recebendo informações que poderão ser compiladas no futuro. O que o Instituto Brasília Ambiental tem registrado são as 33 nascentes localizadas na Estação Ecológica Águas Emendadas — no local, nascem os rios Prata e Tocantins — e mais 200 cadastradas em propriedades privadas. “Ainda não cheguei a receber dinheiro pelo programa, mas, mesmo assim, gosto de participar porque vejo que faz diferença. Está tudo mais verdinho, até mais pássaros apareceram”, Nino Augusto Camada, participante do Programa Produtor de Águas.

 

No intuito de proteger as pequenas minas d’água, a Agência Nacional de Águas (ANA), em parceria com outros órgãos, criou o Programa Produtor de Águas, que consiste em pagar o produtor rural para manter a mata ciliar preservada. Nino Augusto Camada, 55 anos, participa do programa desde 2014. A chácara dele, de 53 hectares, está localizada em Planaltina (DF), próximo ao Córrego Maria Velha. “O pessoal veio aqui e plantou as mudas. Ainda não cheguei a receber dinheiro pelo programa, mas, mesmo assim, gosto de participar porque vejo que faz diferença, está tudo mais verdinho, até mais pássaros apareceram”, comenta.

 

Mudança de hábitos

 

Em casa

Torneira: Ao fechar a torneira, certifique-se que ela não está desperdiçando água. Uma torneira gotejando desperdiça cerca de 46 litros de água por dia.

 

Lavagem de roupa: Use o máximo da capacidade da máquina. Acumule as peças sujas para usar o equipamento com a menor frequência possível. No final do processo, toda a água usada na lavagem e no enxágue das roupas pode servir para a limpeza do chão, de varandas, do quintal ou das calçadas. E o reaproveitamento só requer que se desvie a mangueira do cano de descarga do esgoto para um recipiente, um balde ou galão.

 

Alerta: é importante que essa água vá para o ralo, para o esgoto, e que não termine na rede de águas pluviais. Essa água necessita de tratamento antes de terminar em córregos e rios. O descarte na rua, nas bocas de lobo, causa poluição ambiental.

 

No chuveiro: Quanto mais rápido o banho, maior a economia. Uma ducha funcionando durante 15 minutos significa pelo menos 135 litros pelo ralo, indo embora. Um banho, com o uso racional d’água, diminuiu o gasto total em 90 litros.

 

Ao lavar louça: Use um pano, uma esponja ou um papel toalha para tirar os restos de comida dos utensílios de cozinha e jogue os resíduos no lixo. Depois, encha a pia, coloque algumas gotas de detergente e deixe pratos, talheres, panelas e tudo mais de molho por alguns minutos, antes de começar a lavagem, ainda sem abrir a torneira. Ainda com a torneira fechada, ensaboe peça por peça e só então use a água corrente, na hora de enxaguar. Uma torneira aberta continuamente gasta, em média, 240 litros de água. Abrindo e fechando, o gasto diminui para 70 litros de água.

 

Ao dar descarga: Os vasos sanitários com caixa de descarga acoplada funcionam com menor demanda de água do que os de válvulas na parede. A correta destinação dos dejetos demanda pelo menos 6 litros de água. A cada descarga o gasto pode chegar a 12 litros – mecanismos mais antigos demandam até 25 litros.

 

Ao regar as plantas: Use o regador em vez da mangueira. Essa é a forma mais econômica e racional de molhar as plantas. A cada 15 minutos de uso da mangueira, o desperdício pode somar 280 litros. Para aumentar o aproveitamento da água pelas plantas, vale evitar os horários mais quentes do dia e esperar pela noite, período de menor evaporação.

 

Piscinas: Priorize limpeza em vez de substituição de água. Sempre que a piscina não estiver em uso, faça a cobertura com uma lona para diminuir a perda com a evaporação. Se for necessário o esvaziamento da piscina, a água pode servir para a lavagem de pisos e também para a irrigação de jardins.

 

No setor produtivo

Agricultura: A irrigação feita de modo racional é essencial. Só o ajuste no período do dia potencializa o efeito da hidratação das plantas e resulta em menor demanda por água.

 

Fábricas e comércio: A adoção de equipamentos com tecnologias nas instalações permitem o uso racional. Essas atitudes trazem ganhos ambientais a todos e também rendem, para a empresa, gasto menor.

 

*Fonte: Adasa

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